O genial Charles Chaplin afirmava que a Arte atinge sua forma mais sublime quando o tema, por mais importante e grandioso que seja, pode ser simplificado e compreendido por todos.

Idêntico pensamento também era difundido por Mecenas, um nobre de abastada família romana, de origem etrusca, o mais prestigiado personagem da corte do imperador Augusto, que 30 a. C. a 14 d. C. elevou Roma ao seu período de ouro. Mecenas, dono de imensa fortuna, protegeu poetas e artistas, sendo distinguido por Vergílio e Horácio com dois poemas que se imortalizaram na literatura romana. Seu nome, em vários idiomas, tornou-se designativo de quem protege as artes e as ciências.

O nobre romano extasiava-se, principalmente, com a visão das riquezas e/ou belezas naturais, e a espiritualidade de artistas que, inspirados no culto às divindades do Olimpo, levavam a Arte "a dizer o indizível; exprimir o inexprimível; traduzir o intraduzível", como afirmava Leonardo da Vinci.

No Espírito Santo, onde nasci e cresci em convívio com minha família amante das artes, senti a grandiosidade da integração entre riquezas naturais e arquitetura sacra. No menu "A forma e o conteúdo", deste site, está a imagem da igreja construída por meu avô Basílio.

No seu livro "Novos Caminhos" (Agir Editora - 1976) o incomparável Celso Kelly nos guia para a realidade do tema:

"A história sempre ajuda a entender o posicionamento das artes. Pela simples e elementar razão de que a história é o homem, e, na sucessão das gerações, o homem é sempre o homem, como se sobrevivesse ao tempo, na condição de personagem de 'seu' universo - o pequeno universo em que vive. Em arquitetura, a ilustração do tempo mostra-se perfeita. O Brasil apresenta três momentos definidos em arquitetura: o colonial despretensioso, o barroco opulento e o moderno funcional.  Os adjetivos - despretensioso, opulento e funcional - não chegam a ser classificatórios; são usados apenas como conotações complementares, a dar força maior às três linguagens criativas".

Em outro trecho, Celso Kelly nos faz entender um desses "momentos definidos" na arte sacra brasileira:

"O barroco, no seu iniciar tímido, nas sóbrias fachadas jesuíticas da Bahia, ganharia, em breve, a opulência dos interiores e faria extroverter nos frontispícios o esplendor de suas naves.  A riqueza das origens e da comunidade possibilitou a 'superlativação' do barroco, num crescendo ornamental e no emprego de matérias preciosas, como o ouro e o mármore.  A força dos primeiros ímpetos de rebeldia formal - mais um protesto de liberação que qualquer intenção estética - veio a adoçar-se na finura e no requinte do rococó, tão frequente nos pequenos e deliciosos templos de Minas Gerais.  O lavor na madeira e na pedra, envolvendo todos os espaços, e a pintura ilusionista dos tetos somavam uma linguagem plástica ou visual - o efeito no plástico, o visual na captação - que emprestavam aos templos, de um lado, o recolhimento da fé, e de outro a eloquência paralela aos sermões e aos atos litúrgicos".

No litoral capixaba, nos caminhos percorridos por José de Anchieta, estão as deslumbrantes visões da integração entre riquezas naturais e arquitetura sacra; os cenários de trechos da baixada litorânea, com suas praias, variedades de restingas e generosa vegetação, onde há numerosas construções erguidas pela arte dos jesuítas.

 
2008 - Elaboração e manutenção - Eliane Wasinger Lustosa Brasil