O cinema é chamado de “A Sétima Arte”; as seis anteriores são: Pintura, Arquitetura, Escultura, Literatura, Música e Teatro. Mas, por que a fotografia não é considerada?

Nos tempos de Aristóteles já se conhecia o fenômeno da produção de imagens pela passagem da luz através de um pequeno orifício. No século X d.C., o matemático e astrônomo árabe Abu Al Hazan enunciou as leis da propagação retilínea, da reflexão e refração da luz. Na Renascença, Leonardo da Vinci primava o nascimento da Fotografia, descrevendo no Codex Atlanticus os métodos e efeitos das suas experiências. Ele constatou que, se na janela de um quarto, sala etc., fosse feito um pequeno furo arredondado, na parede em frente ao orifício seria projetada a imagem, de cabeça para baixo, do âmbito exterior visto da janela.

Da Renascença até o século XIX, pintores e desenhistas valeram-se do fenômeno descrito por da Vinci para reproduzir imagens, com a utilização de caixas de madeira pintadas de preto (daí a expressão “câmara escura”). Mas, como fixar a imagem? Foi então que o francês Joseph Nicéphore Nièpce (1765 –1833) passou a experimentar diversos processos de fixação, utilizando o cloreto de prata, o betume da Judéia e vários outros compostos químicos. Após alguns anos de tentativas, o perseverante inventor conseguiu capturar a cena de uma mesa posta no jardim da sua casa, com toalha, cálices, talheres etc. Esta imagem, obtida em 1822, é considerada a primeira fotografia. Quatro anos depois, Nièpce associou-se ao pintor e cenógrafo francês Louis-Jacques Daguerre (1787–1851) e, juntos, prosseguiram as experiências, tentando aperfeiçoá-las em nitidez, buscando a fixação da imagem em outro material mais estável e durável do que o papel. Nièpce morreu alguns anos depois e não viu Daguerre alcançar o perseguido sucesso, ao conseguir gravar uma imagem em placa polida de metal.

Curioso é que a mulher de Daguerre, preocupada com o empenho do marido nas suas experiências, procurou François Arago, diretor do Observatório de Paris, respeitado membro da Academia de Ciências da França, e amigo de Daguerre, para que ele obtivesse um atestado de loucura para o inventor, o que o levaria à internação e tratamento psiquiátrico.

Arago tranquilizou a mulher de Daguerre, dizendo que ele ainda não estava completamente doido, que não era um caso de demência irreversível, que o “delírio inventivo” iria passar, ele abandonaria tão desmioladas experiências e voltaria à realidade das coisas. Em 1837, quando Daguerre mostrou a Arago o triunfo da sua criação (patenteada em 1839, com o nome de “daguerreótipo”), o astrônomo ficou totalmente desnorteado...

A novidade conquistou o mundo (chegou ao Brasil em 1840), foi sendo aperfeiçoada por outros inventores, tornando-se, tecnicamente, a base para o surgimento do cinema em 1895, setenta e cinco anos depois da primeira fotografia.

A imprópria designação do cinema como “Sétima Arte” consolidou-se após os filmes falados, ou sonorizados: “Dom Juan”, produzido pela Warner Brothers, lançado em 6 de outubro de 1926; “The seven heaven”, de Frank Borzage, produção da Fox, apresentada em 25 de maio de 1927, e o mais famoso, “Jazz Singer”, estrelado pelo cantor Al Jolson, lançado em noite de grande gala (8 de outubro de 1927) no Warner Theatre, de Nova York.

A Fotografia não pode ser menosprezada, pois além de ser Arte – em toda a sua magnitude – é elemento motriz na vida do ser humano. Todos gostam de registrar seus momentos, alongá-los pelo futuro. Vou me inspirar no emocional de cada um – queremos aspectos das nossas vidas preservados, para que sejam apreciados em tempos vindouros. É nossa forma de desejar a imortalidade.

Henrik Willen Van Loon (1882 - 1944), historiador, jornalista, professor nas Universidades de Harvard, Cornell e Munique, em seu consagrado livro "As Artes" deixa bastante claro que o desprezo à Fotografia surgiu logo após o sucesso popular do daguerreótipo. Um desprezo comandado pelos cultores do academicismo, os mesmos que rejeitavam e hostilizavam os impressionistas.

Os adeptos da Fotografia permaneceram passivos, ou indiferentes, o que não aconteceu com os cineastas. Estes impuseram o reconhecimento do Cinema como a 7ª das Artes, ignorando qualquer argumento contrário vindo dos tradicionalistas.

Não somente a Fotografia é desconsiderada; também outras habilidades do ser humano são discriminadas, rotuladas de “artes menores”, como a decoração, ourivesaria, cerâmica, tapeçaria, encadernação, arte plumária, culinária, o artesanato, vestuário, bordado, mobiliário etc. Artes que em Roma, ao tempo do imperador Augusto (a chamada “Era de Ouro do Império Romano”) eram intensamente valorizadas. A corte imperial, em Capri, abrigava peças vindas das várias partes do mundo sob o domínio ou influência de Roma, peças que ficavam sob guarda e zelo de especialistas, entre os quais Venísia de Mycenes, para quem todo objeto ali exposto não era ars minor, mas sim ars magnus.

Em maio de 2011, concluí o Curso de Pós-Graduação em Arte e Cultura - do Instituto de Humanidades da Universidade Cândido Mendes, que muito ampliou e aprofundou meus conhecimentos. E aqui reproduzo parte de que deixei registrado nos anais do referido Curso:

A fotografia foi a mensagem decisiva na minha vida profissional. Poderia ter escolhido qualquer outra atividade, mas entendi que o mundo artístico, o da imagem, traria para mim grande contentamento. Desde quando dei os primeiros cliques, numa singela máquina fotográfica, pude perceber o belo caminho que é a magia do ato fotográfico; o poder do registro; as mudanças em perspectivas e reflexos.

 
2008 - Elaboração e manutenção - Eliane Wasinger Lustosa Brasil