Ao
contemplar uma tela, escultura ou qualquer criação,
busco sentir em que circunstância ela foi concebida. Assim,
ao ver um trabalho de Hieronimus Bosch, reflito sobre a religiosidade
que no século XVI só tratava dos extremos: o bem
e o mal. O primeiro era simbolizado pelo pintor holandês
através de figurações que induziam ao encontro
com Deus, enquanto o segundo era representado por monstruosidades,
aberrações e cenas demoníacas.
Nas
telas de Van Gogh vejo as angústias e desesperanças
da vida do artista. Em Matisse impressiona-me o esmero na separação
de cada elemento, o desenho, a concepção e o colorido.
Em Rembrandt gosto da luminosidade, o uso equilibrado do claro-escuro
e o realismo. Mas também penso nas alternâncias das
condições financeiras do artista, seus conflitos
familiares e a solidão que o vitimou ao fim da vida.
Toulouse-Lautrec
me faz sentir o burburinho do Moulin-Rouge, o tormento da deficiência
física e as excentricidades do artista. Quanto a Cézanne
busco entender seu sentimento diante das críticas negativas
em torno das suas obras e a decepção com o escritor
Emile Zola. Este transformou Cézanne no pintor fracassado
do livro "A Obra".
Kandinski
leva-me a meditar sobre sua luta, quase solitária, pela
supremacia do espiritualismo na criação artística,
crença inabalável que o colocava em choque com o
materialismo e os interesses predominantes do mercantilismo.
Tenho
especial admiração pela arte naif (do francês,
que se traduz como ingênuo, singelo, natural), trabalho
de pintores (chamados "primitivos") que não se
preocupam com a técnica nem com as proporções
e perspectivas. Uma arte de origem bastante remota, presente em
todas as civilizações, mas somente reconhecida a
partir das obras do francês Henri Rousseau (final do século
XIX) defendidas ardorosamente por Degas, Picasso, Toulouse-Lautrec
e Paul Signac, este considerado na época o mais intelectual
artista da Europa.